as havaianas calçadas faziam antever uma quente noite de novembro na zé dos bois devido às projecções sonoras oriundas da américa do norte. da constelação canadiana chegaram uns hrsta com um intrigante enredo sónico e cristalino, alternando a pureza da guitarra acústica e da poesia com experiências maquinais manipuladas por humanos pós-desenvolvidos que nos conduziam por um bosque iluminado pela tremeluzente lua quase cheia. foram percorridos trilhos que deambularam quer por "l'éclat du ciel était insoutenable", quer por "stem stem in electro" e outras sinfonias mais. apesar da distância à próxima paragem ainda se ouviram batidas no soalho gasto da sala meia cheia de "swallow's tail" que nos acompanhou até à chegada de carla bozulich.
(flying red oak)
depois de alguns anos confinada à cena experimental de los angeles, como figura de proa em bandas tão desconhecidas fora de portas como os ethel meatplough ou os geraldine fibbers, carla bozulich mandou as bandas às urtigas e lançou-se em nome próprio. a primeira aparição da menina carla em lisboa deve-se à promoção do seu mais recente trabalho “evangelista” (primeiro trabalho de um artista não-canadiano a ser editado pela constellation records) e para tal fez-se acompanhar ao vivo por uma baixista e 2/3 dos hrsta em alguns dos temas.
e se nos hrsta a poesia se manifesta numa roupagem atmosférica, a poesia continuou mas na sua forma mais visceral. algures entre uma diamanda galàs e uma pj harvey circa “rid of me”, isto é, mulher-com-ar-torturado-tocadora-de-guitarra-eléctrica-com-vestido-à-baile-de-finalistas-alternativo-a-cantar-com-voz-cavernosa-e-laivos-gospel, a menina carla provou que a palavra “intimista” não pode ser utilizada por dá cá aquela palha em qualquer espectáculo só porque envolve um candelabro em cima do amplificador ou porque o artista actua de olhos fechados ou porque troca meia dúzia de palavras amigáveis com o público. não, não é nada disso, intimista é uma total entrega, um pôr-se a nu perante o público e um transmitir real das emoções. quando a menina carla vociferou interminavelmente “LOVE” num dos mais sentidos temas da sua actuação, ninguém teve dúvidas que tal nível de intensidade era genuíno. ou quando abandonou o palco para deambular no meio da assistência enquanto cantava e ia fixando olhos-nos-olhos diversos elementos do público, os sentimentos de partilha e reciprocidade eram óbvios. ou ainda quando alternava entre cantar e narrar os temas, dando ênfase a que no fundo no fundo as suas canções são histórias que vêm do seu âmago. ou quando alguns afortunados saíram da zdb com a certeza que presenciaram um momento ímpar.
(araponga!)
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